A infalível churrasqueira foi parar na cozinha, que virou americana e liberou a sacada, agora integrada de vez à sala.A busca por conforto, espaço e privacidade está mudando as feições dos apartamentos dos gaúchos.Não é novidade que, mesmo morando empoleirado, o gaúcho considera a churrasqueira um item imprescindível. Mas o hábito arraigado de assar a carne aos domingos com a família está mudando de lugar. Manejar os espetos na sacada no apartamento agora só é comum em prédios construídos há mais de cinco anos. Nos empreendimentos mais recentes, a ordem é evitar pingos de gordura no chão da sala. O jeito foi acomodar a churrasqueira mais perto da cozinha.
A realocação da churrasqueira está relacionada a uma mudança na legislação da Capital do início da década, que passou a permitir sacadas integradas à sala, hoje uma característica predominante nos prédios novos. A mudança veio a reboque da iniciativa dos moradores, que começaram a fechar esses espaços por conta própria para ampliar o living e, ao mesmo tempo, protegerem-se do clima frio e ventoso do inverno do Estado.
Pesquisa do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS) mostra que, nos últimos 12 meses, os apartamentos de três dormitórios representaram 41,79% dos imóveis novos vendidos na Capital. A faixa de preço entre R$ 143 mil e R$ 242 mil respondeu por 39,13% dos negócios.
Conforme executivos de construtoras apontadas pelo mercado como as principais que trabalham com imóveis desse valor, a busca por novos espaços mudou as características do apartamento do gaúcho nos últimos anos. Em busca de conforto e privacidade, por exemplo, uma exigência básica do comprador é ter dois banheiros, sendo um no quarto de casal, enquanto o segundo deve ser pelo menos um lavabo.
O diretor-presidente da construtora Arquisul, Paulo Roberto Silveira, diz que uma demanda crescente é pelo quarto principal não tão pequeno.
– No dormitório do casal, sentimos a necessidade de um closet ou lugar para um armário espaçoso – explica Silveira.
Os outros dois quartos permanecem espremidos na área total da unidade, que pode variar de 65 m2 a até 100 m2 de área privativa.
– Os apartamentos de três quartos têm hoje a metragem que antes tinham os de dois – resume o vice-presidente de comercialização de imóveis do Sindicato da Habitação do Estado (Secovi-RS), Gilberto Cabeda, lembrando que este ano os imóveis usados de três dormitórios também desbancaram os de dois como líderes em oferta na Capital.
O terceiro dormitório pode ter outra função, tendência decorrente da redução do número de pessoas nas famílias. Segundo Silveira, a peça pode servir também como home theater, gabinete ou ter a parede derrubada para aumentar o living.
– O terceiro quarto é a peça coringa – observa Gustavo Kosnitzer, gerente regional sul da Rossi.
Segundo a arquiteta Fernanda Duré, cresce, entre aqueles que não utilizam o terceiro quarto como dormitório, a tendência de abrir a parede e integrá-lo à sala como um home office, mas que pode ser fechado com painéis ou porta de correr no caso de se receber um hóspede.
– Como os apartamentos não são grandes e as famílias estão menores, busca-se maior amplitude dos espaços – diz Fernanda.
O diretor de comercial da Capa Engenharia, Luiz Antonio Saldanha, nota que até o avanço dos laptops sobre os tradicionais desktops influencia o novo desenho do apartamento dos gaúchos.
– O webspace está caindo em desuso. Hoje, todo mundo tem um notebook que pode abrir em qualquer lugar da casa – ressalta Saldanha.
A tendência de comprimir os espaços e a procura por funcionalidade segue na área de serviço, onde há lugar apenas para o tanque e a máquina de lavar. E passa para a cozinha, já que é cada vez mais raro a família se reunir para as refeições. Com isso, cresce a inclinação pela cozinha tipo americana, que dá a sensação de ambiente ampliado. Como a gastronomia se transformou em sinônimo de lazer, facilita o contato com a sala quando se recebe um pequeno grupo de pessoas.
– De uns cinco anos para cá, caiu a resistência que o gaúcho tinha pela cozinha americana, que já era algo consolidado em São Paulo e no Rio. E naquelas cidades, a churrasqueira, que não era uma exigência, passou agora a ser. Houve este intercâmbio cultural – ressalta o diretor comercial da Goldsztein Cyrela, Ricardo Jornada.
Outro detalhe valorizado é a orientação solar. A preferência é pela frente norte, que recebe maior incidência de sol, um artigo precioso nos chuvosos e cinzentos dias de inverno. Para os dormitórios, também existe o gosto pelo leste. Calcula-se uma diferença de 5% no preço de apartamentos iguais, no mesmo andar, conforme a orientação solar.
Carlos Alberto Aita, ex-presidente do Sinduscon-RS que recém encerrou a segunda gestão à frente da entidade, diz que as características também são válidas no Interior, com a diferença de que nas cidades menores há oferta de áreas mais extensas, o que permite construções com metragem maior.
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CAIO CIGANA
ZH Dinheiro /25/10/2009